Transformando o coaching desde a raiz
Trago-te uma história real (nome alterado, contexto modificado) que evidencia como tem evoluído a minha prática como coach.
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Acredito que não é preciso sermos psicólogos para servir com integridade e apelo, também, à responsabilidade pessoal para integrar um saber integral que nos permita apoiar o coachee com maior segurança, ética e competência.
A Maria é coach e trabalha comigo na mentoria individual para melhorar os resultados do seu projeto.
Nesse dia, chegou à terceira sessão com dificuldade em estabelecer contato visual comigo. Reparei num tom de voz mais baixo, espaçado. Ela parecia algo pálida, cabisbaixa.
Dei as boas-vindas, procurei conectar descrevendo algo diferente que observei no seu ambiente (sessão virtual via Zoom) e reparei que ela não sorriu como costume.
Como coach e, pensando quando comecei em 2019/2020, teria ficado nervosa em modo autojulgador, pensando: O que estou a fazer de errado? Será que ela não está a gostar do processo e hoje vem assim desmotivada? O que fiz?
A tendência, para acolher o nervosismo, teria sido encher os espaços de silêncio com perguntas para ampliar o seu estado atual: O que está a acontecer agora? Como te encontras desde a última sessão? Que intenção trazes para hoje? E teria falado das minhas intenções.
Eu sabia que havia algo diferente.
O corpo da Maria estava a contar uma história que a sua voz ainda não conseguia expressar.
Gentilmente, devolvi para a Maria, com palavras, o que estava a observar e a sentir.
Após ter-me ouvido atentamente, ela suspirou e a sua postura na cadeira mudou.
Falou comigo sobre uma situação de conflito com o seu companheiro que tinha sucedido poucos minutos antes da nossa sessão.
E enquanto relatava o conflito, percebi como a sua respiração ficou mais rápida, o seu tom de voz mudou e os seus ombros se tensionaram visivelmente. E, depois de eu ter acompanhado o relato com expressões vocais não-verbais, a Maria conectou o seu olhar comigo, mais expansivo e chorou.
Há uns anos, eu teria procurado seguir com o que aprendi: colocando perguntas.
Hoje, graças ao meu entendimento sobre trauma e sistema nervoso autónomo, reconheci os sinais de um sistema nervoso ativado e, graças a essa escuta atenta e a algumas ferramentas da Experiência Somática, consegui promover um estado de muitos mais recursos para a Maria, para podermos avançar com a sessão.
Ao invés de perguntar mais, de promover uma conversa cognitiva e mental sobre o conflito, guiei a Maria para um estado de regulação (ventral).
Estabelecemos segurança no ambiente, conectámos e acolhemos.
É mágico ver essas mudanças acontecer no outro, por vezes muito subtis. Os seus ombros relaxaram gradualmente, a sua face ficou mais relaxada e o olhar mais conectado.
Depois, uma vez que a Maria estava num estado mais regulado, trouxemos percepção à sua sensopercepção, quer dizer, trouxemos consciência e cognição.
Elementos fundamentais para que o coachee se sinta empoderado, com senso de escolha.
A Maria não precisava, na sessão, de entrar logo no modo fazer e definir objetivos para o seu projeto. Ela precisava de um interlocutor que a visse na sua totalidade, que pudesse criar condições para avançar.
Esta é apenas uma das muitas situações que podemos encontrar na nossa prática diária.
Como profissionais do desenvolvimento humano, precisamos de estar preparados para reconhecer e trabalhar com estas dimensões mais profundas.
Momentos como este, que vivo numa base diária com clientes (e não só) reforçam a importância de integrar conhecimentos de trauma e regulação nervosa autónoma na minha prática profissional.
Não se trata apenas de ter mais ferramentas, é sobre proporcionar um espaço verdadeiramente seguro e transformador para os nossos clientes.
A Maria saiu daquela sessão diferente.
Nas semanas seguintes, relatou mudanças significativas na forma como lidava com o conflito. Mas, o mais importante, está a desenvolver uma nova relação com o seu sistema nervoso, está a encontrar mais recursos e flexibilidade para transitar entre estados de regulação e desregulação.
Como profissionais do desenvolvimento humano, frequentemente nos questionamos:
- E se eu não estiver preparado para lidar com o que surge?
- Como posso ter a certeza de que estou realmente a ajudar?
- Onde está o limite entre coaching e terapia?
É por isso que existe o Programa RAIZ : uma experiência imersiva de 3 dias que vai transformar a tua forma de trabalhar (e de olhar para ti também).
Não existe outro programa que combine de forma tão prática e experiencial os fundamentos da psicologia do trauma com as ferramentas do coaching, de parentalidade e comunicação compassiva.
Estás pronto para elevar o teu compromisso com uma prática profissional mais completa?
Se tens perguntas sobre o RAIZ, encontras aqui toda a informação.
Abraço sereno,
Ana Higuera