Uma ida ao dentista sem traumas

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O meu filho (11 anos) tinha uma consulta no dentista para um procedimento novo: uma extração de um dente com anestesia. Conhecendo-o, sabia que seria preciso tempo e informação clara para ele atravessar essa experiência com recursos e não possuído pelo medo.

Vou partilhar o que vivemos no próprio dia e, no final, trago a tradução dessa experiência à luz da ciência, por isso, garante que lês até ao fim para melhor compreenderes a importância de sermos amigos do nosso SNA (Sistema Nervoso Autónomo).

A minha intenção com esta história real é inspirar-te para: 

🌿Um caminho mais conectado com o teu corpo;

🌿Um caminho mais consciente dos efeitos do trauma;

🌿Uma tomada de consciência do papel que temos enquanto pais, educadores, amigos, líderes de equipas, profissionais de saúde, da educação, coaches.

Inicio então a história da ida ao dentista:

Na sexta-feira, fui buscá-lo ao colégio pelas 10h30. A consulta estava marcada para as 11h00. Quando o vi, a primeira coisa que ele fez foi olhar-me e apercebi-me logo que tinha medo. Não houve muito espaço para um abraço, tocamo-nos com as mãos e fomos em silêncio na direção do carro. Sentou-se ao meu lado e começámos a viagem.

Eu disse-lhe: "Parece-me que estás nervoso, tens as mãos a transpirar filho?" (eu conseguia ver as mãos com água). Ele verbalizou que estava muito nervoso e com medo.

Então, perguntei: “Como sabes que estás nervoso? O que, no teu corpo, te informa disso?”

Ele começou a rastrear o corpo e rapidamente disse algumas coisas como: “Dói-me a barriga, as mãos transpiram muito, sinto-me agitado no peito”.

Eu estiquei a minha mão direita, ele apertou-a. Senti a transpiração. E, bastou esse gesto gentil, para que começassem a escorrer umas lágrimas pela cara. Aguardei uns segundos e depois falei.

“E agora, filho?” - perguntei.

Ele disse-me que tinha conversado com um amigo que já tinha tirado vários dentes e que lhe tinha dito que, mesmo com anestesia, tinha sentido dor. E, se há algo que o meu filho não gosta, é de sentir dor (quem gosta, não é?).

Apercebi-me que, a partir daí ficou mais disponível para dialogar comigo, trazendo um pouco mais do que tinha acontecido durante o dia. E do que estava a pensar sobre tirar o dente (significados atribuídos à experiência). Também verbalizou o importante que era para ele que eu estivesse presente no consultório do dentista.

Foi-se acalmando, fomos conversando até chegarmos ao estacionamento no lugar de destino. Eu repeti que estaria com ele a todo o momento, sabia o quão importante era para ele que eu estivesse perto.

É lindo como conseguimos escutar o que o corpo nos diz, pois raramente isso nos foi ensinado.

Bastou, com curiosidade e empatia, levá-lo para o corpo para abrir espaço para a conexão comigo, com ele, com a segurança.

Quando estávamos na sala de espera, ele sentiu novamente o nó na barriga, convidei-o a ir à casa de banho, lavar as mãos, a cara… pequenos gestos gentis de regulação. Ficamos no telemóvel a ver um vídeo sobre aviação, que ele adora, até que a enfermeira apareceu. E aí, nesse momento, reparei como o corpo dele ficou absolutamente tenso, quase imóvel. Como se quisesse desaparecer. De facto, nesse momento, sem poder fugir nem lutar, não tinha outra opção a não ser querer não existir.

A enfermeira foi amorosa e muito atenta. Ela perguntou se queria entrar sozinho, achava que ele já tinha idade para o fazer, além de que conhece a casa desde que era bebé.

Ele olhou novamente para mim e subitamente começou a chorar com muita intensidade.

Sentámo-nos os 3, agarrei-lhe as mãos e deixei falar a enfermeira. Ela pediu que se acalmasse, que não queria que ele estivesse assim. Ela disse que eu poderia entrar se ele assim preferisse.

O Tomás nunca deixou de olhar para mim. Estivemos super conectados. Eu prometi que iria com ele e assim foi. Repeti com gentileza: “Filho eu vou contigo. Se em algum momento for preciso sair, combinamos juntos. Eu estou contigo”.

Passaram alguns minutos de choro, abraçado a mim e depois entrámos.

Não vos consigo dizer quanto tempo passou desde que chegámos até entrarmos na sala do dentista. Talvez meia hora entre esperar e 5 minutos conversando com a enfermeira.

Sei que esse tempo foi fundamental.

Eu que não gosto de atrasos nos horários, agradeci muito por ter tido tempo para ajudar o meu filho a ancorar-se no presente, no seu senso de segurança, no nosso vínculo e no vínculo com a enfermeira e o dentista.

Digo-vos que correu lindamente! Fiquei surpreendida. Estive sempre perto dele. Mão apertada. Testemunhando o quanto foi importante a segurança oferecida pelos profissionais. Lembro-me que após sairmos do lugar, das primeiras coisas que me disse antes de entrarmos no elevador foi o quanto tinha gostado da atitude do médico e da auxiliar.

Agora que leste a história, vou trazer um pouco de palavras explicativas e de tradução da experiência do meu filho à luz da ciência e da incrível Teoria Polivagal.

Imagina que vais num cavalo a galopar. Confias nele, estás segura, sabes como cavalgar.

De repente, o cavalo apercebe-se de uma ameaça e descontrola-se. E tu, de forma repentina não compreendes bem o que sucede e tens de te adaptar, procurando restaurar o senso de segurança do teu cavalo.

Foste apanhado “de surpresa” e estás agora a ser comandado pelo ímpeto protetor do cavalo que tenta correr o mais rápido possível atrás do seu potro que fugiu da vista.

Pois bem, esta metáfora é uma boa forma de explicar o papel do nosso SNA (como esse cavalo).

Ele está a avaliar continuamente o ambiente de forma autónoma (sem que tenhamos controlo) para preservar as nossas funções vitais.

O SNA procura sinais de segurança ou perigo e influencia diretamente como nos sentimos e nos comportamos.

Temos 3 formas de ver o mundo através do nosso SNA quando aparece uma situação desafiante:

🌳A primeira:

O mundo é acolhedor, apetecível, interessante. Nesse mundo, eu sinto-me vivo, com opções, entusiasmado com os desafios, disponível para conectar com outros, comigo. Seguro.

🌳A segunda:

O mundo é perigoso, caótico, desorganizado. Nesse mundo, eu sinto-me fora de controlo, desregulado, inseguro, com medo. Apetece-me fugir desse mundo ou lutar contra ele.

🌳A terceira:

O mundo é escuro, vazio, absolutamente ameaçador. Nesse mundo, eu sinto-me abandonado, perdido, sozinho, aterrorizado. Apetece-me desaparecer, congelar.

E essas 3 formas têm uma hierarquia e respondem ao processo evolutivo.

Queres saber o nome desses estados?

» O primeiro é o estado parassimpático ventral.

» O segundo, o estado simpático.

» O terceiro, o parassimpático dorsal.

Na experiência do meu filho:

À saída da escola, estava no estado simpático, sentindo-se ameaçado e sem espaço para um abraço.

Quando entramos no carro, com o meu gesto de tocar a mão, ele passou do simpático para o ventral: houve espaço para a conexão comigo, sentiu-se seguro o suficiente para chorar e falar sobre o que tinha acontecido e pedir o que precisava.

Estando na sala de espera, ele dançou entre o simpático (dor na barriga, agitação) e o ventral (rimos e conversamos sobre aviação).

Quando entrou a enfermeira, ele foi claramente para um estado dorsal. Quase congelou.

E depois, com ajuda de uma presença adulta regulada, chorou agitado (simpático) e acalmou ficando disponível para caminhar até a sala (ventral).

E esta dança é o que acontece durante o nosso dia-a-dia.

Desregulamos muitas vezes e transitamos entre estados. Sempre, é diário.

O problema está quando não sabemos, com flexibilidade, transitar entre estados e ficamos presos no simpático ou no dorsal.

Mas, esses estados não só estão presentes em situação de ameaça, eles também cumprem funções básicas para momentos importantes do dia-a-dia. 

Espero que esta história te convide a colocar mais atenção em como esses estados se manifestam no teu dia-a-dia.

Será um bom começo para te tornares mais amiga(o) do teu SNA.

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Abraço sereno,

Ana Higuera

 

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