Uma ida ao dentista sem traumas
Tempo estimado de leitura: 5 mins
O meu filho (11 anos) tinha uma consulta no dentista para um procedimento novo: uma extração de um dente com anestesia. Conhecendo-o, sabia que seria preciso tempo e informação clara para ele atravessar essa experiência com recursos e não possuído pelo medo.
Vou partilhar o que vivemos no próprio dia e, no final, trago a tradução dessa experiência à luz da ciência, por isso, garante que lês até ao fim para melhor compreenderes a importância de sermos amigos do nosso SNA (Sistema Nervoso Autónomo).
A minha intenção com esta história real é inspirar-te para:
🌿Um caminho mais conectado com o teu corpo;
🌿Um caminho mais consciente dos efeitos do trauma;
🌿Uma tomada de consciência do papel que temos enquanto pais, educadores, amigos, líderes de equipas, profissionais de saúde, da educação, coaches.
Inicio então a história da ida ao dentista:
Na sexta-feira, fui buscá-lo ao colégio pelas 10h30. A consulta estava marcada para as 11h00. Quando o vi, a primeira coisa que ele fez foi olhar-me e apercebi-me logo que tinha medo. Não houve muito espaço para um abraço, tocamo-nos com as mãos e fomos em silêncio na direção do carro. Sentou-se ao meu lado e começámos a viagem.
Eu disse-lhe: "Parece-me que estás nervoso, tens as mãos a transpirar filho?" (eu conseguia ver as mãos com água). Ele verbalizou que estava muito nervoso e com medo.
Então, perguntei: “Como sabes que estás nervoso? O que, no teu corpo, te informa disso?”
Ele começou a rastrear o corpo e rapidamente disse algumas coisas como: “Dói-me a barriga, as mãos transpiram muito, sinto-me agitado no peito”.
Eu estiquei a minha mão direita, ele apertou-a. Senti a transpiração. E, bastou esse gesto gentil, para que começassem a escorrer umas lágrimas pela cara. Aguardei uns segundos e depois falei.
“E agora, filho?” - perguntei.
Ele disse-me que tinha conversado com um amigo que já tinha tirado vários dentes e que lhe tinha dito que, mesmo com anestesia, tinha sentido dor. E, se há algo que o meu filho não gosta, é de sentir dor (quem gosta, não é?).
Apercebi-me que, a partir daí ficou mais disponível para dialogar comigo, trazendo um pouco mais do que tinha acontecido durante o dia. E do que estava a pensar sobre tirar o dente (significados atribuídos à experiência). Também verbalizou o importante que era para ele que eu estivesse presente no consultório do dentista.
Foi-se acalmando, fomos conversando até chegarmos ao estacionamento no lugar de destino. Eu repeti que estaria com ele a todo o momento, sabia o quão importante era para ele que eu estivesse perto.
É lindo como conseguimos escutar o que o corpo nos diz, pois raramente isso nos foi ensinado.
Bastou, com curiosidade e empatia, levá-lo para o corpo para abrir espaço para a conexão comigo, com ele, com a segurança.
Quando estávamos na sala de espera, ele sentiu novamente o nó na barriga, convidei-o a ir à casa de banho, lavar as mãos, a cara… pequenos gestos gentis de regulação. Ficamos no telemóvel a ver um vídeo sobre aviação, que ele adora, até que a enfermeira apareceu. E aí, nesse momento, reparei como o corpo dele ficou absolutamente tenso, quase imóvel. Como se quisesse desaparecer. De facto, nesse momento, sem poder fugir nem lutar, não tinha outra opção a não ser querer não existir.
A enfermeira foi amorosa e muito atenta. Ela perguntou se queria entrar sozinho, achava que ele já tinha idade para o fazer, além de que conhece a casa desde que era bebé.
Ele olhou novamente para mim e subitamente começou a chorar com muita intensidade.
Sentámo-nos os 3, agarrei-lhe as mãos e deixei falar a enfermeira. Ela pediu que se acalmasse, que não queria que ele estivesse assim. Ela disse que eu poderia entrar se ele assim preferisse.
O Tomás nunca deixou de olhar para mim. Estivemos super conectados. Eu prometi que iria com ele e assim foi. Repeti com gentileza: “Filho eu vou contigo. Se em algum momento for preciso sair, combinamos juntos. Eu estou contigo”.
Passaram alguns minutos de choro, abraçado a mim e depois entrámos.
Não vos consigo dizer quanto tempo passou desde que chegámos até entrarmos na sala do dentista. Talvez meia hora entre esperar e 5 minutos conversando com a enfermeira.
Sei que esse tempo foi fundamental.
Eu que não gosto de atrasos nos horários, agradeci muito por ter tido tempo para ajudar o meu filho a ancorar-se no presente, no seu senso de segurança, no nosso vínculo e no vínculo com a enfermeira e o dentista.
Digo-vos que correu lindamente! Fiquei surpreendida. Estive sempre perto dele. Mão apertada. Testemunhando o quanto foi importante a segurança oferecida pelos profissionais. Lembro-me que após sairmos do lugar, das primeiras coisas que me disse antes de entrarmos no elevador foi o quanto tinha gostado da atitude do médico e da auxiliar.
Agora que leste a história, vou trazer um pouco de palavras explicativas e de tradução da experiência do meu filho à luz da ciência e da incrível Teoria Polivagal.
Imagina que vais num cavalo a galopar. Confias nele, estás segura, sabes como cavalgar.
De repente, o cavalo apercebe-se de uma ameaça e descontrola-se. E tu, de forma repentina não compreendes bem o que sucede e tens de te adaptar, procurando restaurar o senso de segurança do teu cavalo.
Foste apanhado “de surpresa” e estás agora a ser comandado pelo ímpeto protetor do cavalo que tenta correr o mais rápido possível atrás do seu potro que fugiu da vista.
Pois bem, esta metáfora é uma boa forma de explicar o papel do nosso SNA (como esse cavalo).
Ele está a avaliar continuamente o ambiente de forma autónoma (sem que tenhamos controlo) para preservar as nossas funções vitais.
O SNA procura sinais de segurança ou perigo e influencia diretamente como nos sentimos e nos comportamos.
Temos 3 formas de ver o mundo através do nosso SNA quando aparece uma situação desafiante:
🌳A primeira:
O mundo é acolhedor, apetecível, interessante. Nesse mundo, eu sinto-me vivo, com opções, entusiasmado com os desafios, disponível para conectar com outros, comigo. Seguro.
🌳A segunda:
O mundo é perigoso, caótico, desorganizado. Nesse mundo, eu sinto-me fora de controlo, desregulado, inseguro, com medo. Apetece-me fugir desse mundo ou lutar contra ele.
🌳A terceira:
O mundo é escuro, vazio, absolutamente ameaçador. Nesse mundo, eu sinto-me abandonado, perdido, sozinho, aterrorizado. Apetece-me desaparecer, congelar.
E essas 3 formas têm uma hierarquia e respondem ao processo evolutivo.
Queres saber o nome desses estados?
» O primeiro é o estado parassimpático ventral.
» O segundo, o estado simpático.
» O terceiro, o parassimpático dorsal.
Na experiência do meu filho:
À saída da escola, estava no estado simpático, sentindo-se ameaçado e sem espaço para um abraço.
Quando entramos no carro, com o meu gesto de tocar a mão, ele passou do simpático para o ventral: houve espaço para a conexão comigo, sentiu-se seguro o suficiente para chorar e falar sobre o que tinha acontecido e pedir o que precisava.
Estando na sala de espera, ele dançou entre o simpático (dor na barriga, agitação) e o ventral (rimos e conversamos sobre aviação).
Quando entrou a enfermeira, ele foi claramente para um estado dorsal. Quase congelou.
E depois, com ajuda de uma presença adulta regulada, chorou agitado (simpático) e acalmou ficando disponível para caminhar até a sala (ventral).
E esta dança é o que acontece durante o nosso dia-a-dia.
Desregulamos muitas vezes e transitamos entre estados. Sempre, é diário.
O problema está quando não sabemos, com flexibilidade, transitar entre estados e ficamos presos no simpático ou no dorsal.
Mas, esses estados não só estão presentes em situação de ameaça, eles também cumprem funções básicas para momentos importantes do dia-a-dia.
Espero que esta história te convide a colocar mais atenção em como esses estados se manifestam no teu dia-a-dia.
Será um bom começo para te tornares mais amiga(o) do teu SNA.
Se este tema te interessa, e exerces alguma profissão como cuidador(a) de outros (coach, professor, educador, enfermeiro, médico, facilitador de parentalidade ) lembro-te que ainda há vagas para o PROGRAMA RAIZ!
Uma experiência presencial, no Porto, 28, 29 e 30 de março de 2025.
Um programa único e diferenciado, algo sem dúvida potenciador para uma vida mais serena!
Sabe tudo sobre o Programa RAIZ aqui
Abraço sereno,
Ana Higuera