O caminho para relacionamentos seguros
Autenticidade e Verdade
Falar sobre relacionamentos é falar sobre vínculo.
Falar sobre vínculo é falar sobre os laços emocionais que as pessoas desenvolvem ao longo da vida, especialmente nas relações mais próximas.
A teoria da vinculação (de John Bowlby) é uma abordagem psicológica que explora como os padrões de apego vivenciados na infância influenciam a forma como as pessoas se relacionam ao longo das suas vidas.
De acordo com a teoria, as experiências precoces de apego com os cuidadores principais (geralmente os pais) moldam o desenvolvimento emocional e social das pessoas, influenciando a forma como se relacionam com os outros, como lidam com a intimidade e como resolvem conflitos interpessoais.
Quando nascemos, só 30% do nosso cérebro e do nosso sistema nervoso está desenvolvido, pelo que resulta óbvio que é através da relação com outros que conseguimos sobreviver.
Existem muitas necessidades psicológicas que precisam de ser atendidas para um bom desenvolvimento humano.
Segundo o Dr. Gabor Maté, médico húngaro-canadense, especialista em trauma, há duas necessidades básicas que moldam a forma como nos relacionamos com os outros:
A necessidade de autenticidade e a necessidade de ligação.
Enquanto crescemos e desenvolvemos vínculos (com os nossos principais cuidadores, educadores, professores, amigos), somos “forçados” a fazer uma escolha que pode estar na origem da nossa dificuldade em sermos verdadeiros.
Uma escolha que cria altos níveis de insegurança, que pode despertar medo e vergonha (tudo aquilo que não desejamos para uma relação saudável).
Para maior compreensão, partilho duas histórias em modo de exemplo:
Uma criança de 6 anos come um chocolate. Quando a mãe pergunta se ela comeu, a criança responde com a verdade: “Sim mãe”. Preocupada com a alimentação saudável, a mãe diz: “Fico muito zangada contigo, assim não gosto de ti”.
Repara na proposta condicional da frase, que se pode traduzir assim: se não comeres chocolate, eu gosto de ti.
O que acontecerá da próxima vez que a criança comer um chocolate?
Provavelmente irá mentir para manter o vínculo com a mãe e evitar que ela não goste de si.
No fundo, com a melhor das intenções, a mãe está a forçar a escolha:
- Para preservar o vínculo comigo (necessidade de ligação), tu não podes ser tu (necessidade de autenticidade).
Um jovem está interessado numa profissão que não é do agrado dos seus pais. Caso ele escolha essa profissão, sabe que os pais ficarão desiludidos. O jovem, apesar do descontentamento dos seus pais, avança com a sua decisão.
No fundo, decide ser ele próprio, mesmo que isso coloque em risco a qualidade do vínculo com os seus pais.
Os pais, com a melhor das intenções, estão a forçar a escolha:
- Para preservar o vínculo connosco e manter o reconhecimento (necessidade de ligação), precisas de abdicar da tua escolha (necessidade de autenticidade).
Desta forma, é muito frequente que em diferentes contextos relacionais estejamos a ser “obrigados” a escolher entre sermos nós (verdadeiros) e manter vínculos (ligação).
Alguma vez tinhas pensado nisto? O que desperta em ti?
No próximo post trago-te a segunda parte desta reflexão sobre Autenticidade e Verdade.
Abraço sereno,
Ana Higuera